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Mostrando postagens de abril, 2026

A REDE DO FAQUIR

Sou da terra da lavoura  Da mamona e do sisal  Onde se trabalha muito  E se ganha muito mal Onde lajedo não faz cuscuz Em cacimba não dá mel Lambe-se sangue de punhal Na garganta de coronel  Filho de Ailton Britto   Do ventre da pró Isabel  Em Jacobina, um  proscrito Carrancista de tutano  Dos que espreme doce do fel Quando quero dormir Armo minha rede de faquir  Eita sertão subestimado  Nas correntezas do medo Não se esconde o segredo Deve ser modificado! Culpa de quem silencia  Se treme tode de medo  Vive que nem gado, marcado Na coleira da oligarquia. Vem do tempo da Sesmaria Catequese, Ave Maria  Captura,  escravidão  A história faz a poesia  Glosa sua indignação  Vem do Mucambo do Coqueiro  Esse meu canto primeiro  Ensinamentos ancestrais Quem bateu quer esquecer  Quem apanhou, isso não faz. Bota coco, põe repente  Continuo no batente  Não me calarei jamais

INSISTÊNCIA

Acho que tem valido Insistir no meu cantar Em tudo que tenho vivido Para não me entregar Ê, Ê Somente viveno a vida É que se pode aprender Ê, Ê Saudade bate no peito Procuro saber de você A luta é a necessidade Que se passa pra viver Ê, Ê As amarras que nos prendem Te chamo pra nós romper A felicidade é a porta oculta Entremos pra remexer Ê, Ê Pode-se cantar e dizer: Ê, Ê  

DOS TEMPO DA COISA BOA

  Hoje, andando a toa Duas coisa eu me alembro   Dos tempo da coisa boa Uma, o canto que o vaqueiro entoa E outra, tomar banho de lagoa Otas coisa que me alembro Feijão com toicinho dento As férias de dezembro O galope no jumento Coisas antigas do fundo do baú Que é nossa lembrança Apito de chamá nambu   Brincadeiras do meu tempo de criança Banho de rio, já se viu Nem é bom falar

PAPO DE REPENTISTAS

Cara amiga cantadora Que verseja as coisas da vida Cumprimente essa gente Canta a tua poesia Faz pra nois o repente Será que algum dia Apesá da dô que se sente A gente vai tê aligria? Obrigada pelas palavra Que o amigo dizia Cheguei nesse instante E já estou em agunia Nessa cidade gigante Onde tudo me angustia Mais apesá da dô que se sente A gente vai tê aligria   Se aligria tu acha Que um dia vai chega Se alguma luz tu vê Cego hei de está Se a agonia pra te tê Basta tu aqui chegá Tá difícil de acontece O dia de se alegrá Sei sê muito difícil   A aligria chegá Quanto mais plenamente Mais lhe garanto que há Uma que quem sente É capaz de se alegrá Num me sinto impotente Sô capaz de amar

ISTRADA DO DESTINO

  Ele sempre acordava dizeno: “– vô imbora pra São Paulo!” Poucos lhe davam importância O desemprego A seca na roça E a falta de perspectivas lhe atormentava o sono Até que chegou o dia Choro da mãe e do pai Soluções da vó e da tia “— Adeus, minha terra, Adeus meus amigos Até quem sabe, oto dia. Se num fosse no último caso Agaranto que num partia” Foi-se embora pra São Paulo Pegou um pau-de-arara E até hoje num voltô

DOIS NA EMBOLADA

— Oi, esse coco — Que coco tem? — De imbolada — Imbola quem? — Eu e a nega — Isso num chega? —Tá pouco ainda — Quero imbolá — Seja benvinda  — Cadê o coco? — Na imbolada — Pra embalá — Eu e você — Só quero é vê — Tu me dizê — Pra onde vai? — O entra e sai — Desse chamego — É que teu nego — Num toma jeito? — Tá c’um vontade — E a liberdade? — Se faz agora — A gente tora — Essa corrente — Q’ainda prende —Nosso pescoço — Lá vem o coco — Deixa imbolá —Vamos pra cama — Se embalá — Diz que me ama — Sou de amar 

PRAZERES DA CARNE

De tão carnudos teus lábios foram Naquele beijo Que, de faminto, Virei carnívoro Por gosto do experimento Até hoje não saciei (e acho que nunca hei) O apetite As vezes lambo Outras quero morder Fico todo atrapalhado Sem saber o que fazer

BOI NO DESEMBESTO

Vaqueiro amigo meu me disse na semana passada: “— Nasci bicho de canga pra sigui a minha sina Que nem boi machucado Por ferrão da ponta fina. As pereba cortada na chibata me acompanha nos caminho E os casco duro do pé Quebra’s ponta de ispinho A lealdade escravizada O patrão recumpensa Me mantenho no cabresto Mas um dia eu quebro tudo Que nem boi no desembesto”

IDEIA OCULTA

Uma ideia lhe veio à cabeça Coisa tão persistente Que não pode dissipá-la E fugir da tentação que ela lhe causava Pegou um lápis e começou a riscar A riscar de uma forma que se tornava grotesca (raiva da repressão?) Virou obsessão Mas como sempre ocorre Quando o sujeito tá legal “— Pintou sujeira” Teve que disfarçar   E esconder semelhante ideia De forma espalhada Num lugar fresco e ventilado

CONFLITO HARD CORE

Uma fração flutua por cima Dos pisados calos ardentes Suores quentes Gotas de orvalho escaldantes Vulcões lavas constantes Cortes navalhais No pulso, o líquido sangue No corte, o leito profundo Estilhaços de mundo Rasgado peito Apunhalado coração Sofrimentos prolongados Uma perna amputada Outra, perseguida Calos, suores, gotas e vulcões Corte, líquido, estilhaços Rasgado, apunhalado, sofrimento Navalha escaldada do pulso frio tem medo

LACRIMAIS

Choram tristes Os meus versos vagabundos Na ausência de boemia Sem querer rimar realidade Coisa assim sem novidade Trovas de impossibilidade Mundo a dentro vão Procurando poesia Mas sempre voltam embriagados E deitar-se vão, arretados Por não encontrar alegrias pra rima E enquanto gritam pra que acordem Os meus versos choram Por essas noites pálidas, de esperanças ávidas E palavras ásperas Tais realidades trágicas Desolam os meus versos Que, embora vivos, terminam em lágrimas Hasb, SSA, 1991

ABOIO RETIRANTE

CHAPÉU DE COURO, JALECO, Ê BOI Sobras e lembranças Fuga da seca, pedir esmolas Correr da cerca, mendigar Perversa cidade grande Dormindo no relento, marquises Frio, sujeira, crueldade e solidão CHAPÉU DE COURO, JALECO, Ê BOI Os restos das sobras dos lixos Como arame farpados rasgam a garganta E cortam o coração — insosso CHAPÉU DE COURO, JALECO, Ê BOI Tardes, noites e manhãs perambulantes Todo dia, súplicas humilhantes CHAPÉU DE COURO, JALECO, Ê BOI O sertão é só saudades Do que se teve e se perdeu Olhando pra trás Só se enxerga o abandono E pra frente: — ê cegueira com tanta incerteza! CHAPÉU DE COURO, JALECO, Ê BOI E o que resta, boi Chapéu de couro, jaleco Quem me dera, ê boi A esperança  

PARTIDA

E lá se foi Se foi e mal sabia Quando iria voltar Partiu pra tentar vencer todo seu medo Que precisava do perigo Pra perdurar lhe dividindo Entre a vida e o temor Se fue...

DOR NO PEITO

  Tenho um coração cansado Das lutas que tem Travado Ele sangra e Derrama sobre a mente                      Coisas esquecidas Restam só lágrimas E uma dose de             Vinho Se for pra falar de saudade Tenho muita pra contar Amor ausente              Tem a distância Da dor               Q ue acompanha  

UTOPIAS DE HOJE

Clandestina e           Solitária Nossa bandeira           Libertária Jaz fincada num           Cemitério Onde estão sepultados os           Sonhos E das nossas vidas ? ! Só restaram Destroços Enquanto nossas agonias Murmuram, à boca fechada, novas           Palavras de ordem ? !

PARA AQUELES QUE AINDA NÃO DESISTIRAM

  De dia, ainda é Cedo E já me sinto Cansado Dentro de mim só                        Conservo Resquícios d’uma vida                        Perdida Tudo de bom foi                       Esquecido Ficamos corroídos De noite, já é                        Tarde Agora, nos sentimos                        Melhor Estamos traçando o           Dia do amanhã  

ABOIO DE IMPROVISO

Uma bacia rusticamente entalhada Chamada de gamela Junta o choro de um besta Sou eu gamado nela A viagem foi perdida Mas a saudade não desmontou da sela. Minha vida é só lamento Ao vento vai o papel Esse amor é um pecado Mas não quero ir pro céu Minha santa tem um nome Ela se chama Raquel Raquel, filha de Dona Mana Onde vou toda semana Na Feira do Ouro Branco Passo no Brejo Grande, no Tamanco Vou chorar no Olho D'água Passa toda água do rio Continua minha mágoa . Ela não me respondeu Acho que é um aviso A inspiração foi quem me deu Esse aboio de improviso

O GATO DO MATO

Era de meia Nem eram todas minhas O maior dos desacatos Veio o gato-do-mato E acabou o criatório de galinhas As galinhas punham ovos, davam carne; era um negócio Cumpadi Surubim Lembrou de mim Chamou pra seu sócio Criar a de meia Milho na roça, a leira cheia Hortaliças e leguminosas Tano sobrano, tem as penosas ! Tirano lucro, o que render Vai apurado Na porta do lápis contado Depois de vender Dever e haver O que fosse o lucrado Seria dele e meu Mas o desiderato, Veio o gato E a criação comeu Pra cabá de interá O desgraçado do gambá Até os ovos bebeu Me deixou zureta Enquanto praguejava Um monte de palavrão soltava Prometia a mim mesmo que o desgraçado me pagava Que não duvidassem de mim Pego o gato no cacete Espicho o couro no tamburete Vai virar um tamborim E se o gamba aparecer Também vai dar ruim Ele que trate do caminho desse poleiro esquecer Também vai ser espichado Com chuliadeira pregado Vai virar um ...

DILUÍDO

  E o meu pranto Que onda braba Foi parar no oceano Diluído, soluçando Entre os cardumes Esgotados os odores, os perfumes Se acabando.. Correnteza acima Contra-a-maré Vai minha rima Se torna bem mais difícil Mas tem que ser assim De encontro ao precipício Pra retardar o fim

IMERSO ABRIGO ( meu amigo Pemba)

  Penso que algum dia Só alegria O Pó de Pemba vai acordar Dessa imersão São e sano pra relembrar Aqueles rolês de caminhão De Sapopemba pra Estrada do Sabará No caminho a gente passa na Vila Rica Pra saber daquela bronca: -Como é que fica! A cuica ronca Nois não é comédia Balconista de lanchonete É quem sabe fazer média. Fumando altos baseados Fumaceira na boleia Altas viagens, viajando nas ideia Pó de Pemba dormiu Só que ninguém sabe se tem sonhado Mas também não está acordado Que será que ele viu? Perdeu o contato com a realidade Nas loucuras profundas da serenidade Já está acostumado Em olhar pra lugar nenhum Onde ninguém sabe Onde não tem sinal algum Onde conversar não cabe Meu amigo está vivo, mas não vive De alguma forma sobrevive Cabe-nos acreditar Desse imerso abrigo Pode um dia voltar E mesmo que não volte Será sempre o meu amigo

ENAMORADO

  É por isso eu vivo assim; -Apaixonado É por isso eu vivo assim; -Apaixonado É por isso eu vivo assim; -Apaixonado   Imaginei os mais diversos jeitos Ensaiei as mais diversas situações Tentei demonstrar quais as minhas intenções Ensaiei frases de efeitos Mas de nada adiantaram ter feito esses feitos Saiu tudo errado Proletário sozinho e abandonado Meu coração nunca teve direitos.   Um par de olhos lindos Abaixo, um corpo sedutor Meus olhos olham sorrindo Cedem à tentação do amor Ela balançou o cabelo Abriu aquele sorriso Um mordaz apelo Como se fosse um aviso

A FAVELA VENCEU

 A favela é uma flor Que o sol quente cultiva Uma companheira antiga De infortúnio sertanejo Precisa ter molejo de topar o desgosto De encontrar com a urtiga Que não dá nem encosto Nem sombra Nem se deixa tocar A coceira é uma lombra Traiçoeira e infeliz Que nem trair, é só começar Como o ditado diz A experiência é horrível O esporão adentra a pele Basta que na folha rele Fere de forma terrível Favor não fazer confusão Tem favela, tem urtiga e tem cansanção Qualquer uma é capaz Com o estrago que faz De arrancar o couro do cristão Triscou no vivente, ardeu Uma boca de espinho que mordeu Quem era menos bruto, tremeu O poeta viu, descreveu A favela venceu

VIDA ALTA (Highlife)

  Onde hoje é Gana, Benin Ancestral pedaço de mim Iantes do que   agora sou Mandinga, yourubá Jeje, hassuá Nagô, nagô, nagô ao toque do agogô Mesmo não creno vovó batizou Contava dadonde   a gente veio Tinha um oceano no meio Acorrentados nos pés Libambos,   galés Escravos, mercadorias Abençoadas feitorias Capela, capelão, sacramentos Tormentas, tormentos Ekó, ebó, , igbó Em Keto, Oió Expresso nas tranças Nos cantos e Danças Aspectos   sincréticos coletivos Presentes. ativos

O MININO REBELDE DE VÓ

 Eu sou neto de vó Dona Nega Cala-boca ne mim Não chega! Já morreu E somente depois, nasceu O menino rebelde de vó Com orgulho sou eu Esquentando couro pro catimbó No Terreiro de Dona Duminga De onde vem a raiz Aprendendo fazer mandinga Assuntano o que Véia diz Fecha o corpo desse minino Contra faca, bala e mau olhado Ensina os pontos do facão Indoça as beiradas do seu coração Não deixa fugir da razão Faz ele dançar no Terreiro Fecha o corpo desde minino Vai cumprir seu destino De ter nascido guerreiro De nada terá medo não Dentro seu patuá A força do revoltar Fará rivulução

REPENTINO

no traquejo derna de minino esse aqui, nordestino é um pernambucano de sorte caba que venceu a morte fugino pa bahia num tivesse currido, morria quando viero, já sabia antes de raiar do dia tinha arranjado suporte na cintura, faca pra corte do tutano ao tanino o meu nome é Repentino Repentino faz repente fala das coisas que sente e fruvia na sua cabeça escreve antes que esqueça pra publicar no cordel as coisas do seu mundel filho da Pró Isabel coordenação motora no papel que nem a aranha, teça faça por onde mereça quem cala, consente por isso digo: oxente!

VERSOS DO DIA A DIA

  No meu caderno tem coisas Que digo na poesia Na minha poesia tem versos Das coisas do dia-a-dia No dia-a-dia tem tristezas Que trancam minha alegria